quarta-feira, 27 de junho de 2012

A mídia isenta e ética do Brasil: um texto de Reginaldo Melhado

Fico aqui com os meus botões supondo qual seria o comportamento de "Veja" et caterva se um imaginário parlamento venezuelano ou boliviano, com hegemonia de partidos de esquerda, depusesse sumária e inapelavelmente um presidente civil, de direita, com base em pretextos ridículos e acusações levianas e abstratas, escorado em prova alguma – houve instrução no processo, direito à prova? –, tudo isso em algumas frenéticas e breves trinta horas, depois das quais o bispo vermelho descansou em paz, com suas ideias de reforma agrária e sua vasta e escandalosa prole, em encenação grotesca que só não foi mais rápida do que o reconhecimento expresso do novo governo emitido pela cavalaria – digo, chancelaria – do Tio Sam e seu presidente democrata.


     Possivelmente, essa mídia não revelaria a mesma ética e a mesma isenção profissional com que tratou o caso do senador boliviano Roger Pinto Molina, que em seu país é considerado delinquente comum, acusado de assassinato em 21 processos diferentes, incluído o massacre de camponeses. Essa mesma mídia que nos fez latejar os ouvidos no caso Cesare Battisti abandonou todos os seus princípios, todos os valores democráticos e pruridos morais, toda sua energia hercúlea e – tchan, tchan, tchan! – deu uma notinha de rodapé sobre o refúgio político senatorial, de modo indulgente, imperceptível. Como se estivesse a dizer: “Vocês, de esquerda, não fossem mero espelhismo, seriam mesmo uns trouxas!”.


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